Não tá demorando demais, não?

Sobre o tempo das coisas.

Nessa edição, em 3 minutos: sobre o tempo das coisas.

“A criatividade não usada não é benigna. Ela se torna metástase. (…) É perigosa”

Brené Brown

Há um tempo, reencontrei um grupo de amigas do passado que eu não via há anos A gente faz isso, de vez em quando, a cada quatro ou cinco. E uma delas me disse, assim na lata: “caramba, amiga, você tá se curando já faz tempo, né?” Pois é, o ‘já’ me pegou!

Como se, do nada, eu tivesse percebido que tinha gente de fora me observando, tomando nota do meu desempenho, contando os dias e os meses e os anos, no meu próprio Show de Truman. Como se houvesse uma regra clara pra quanto tempo o luto, a depressão ou os pontos baixos de uma vida podem durar. Como se meu corpo e minha mente relutassem em seguir o manual. Como se todo mundo soubesse dessa regra, menos eu. Eu não havia sido brifada.

Pode esmorecer, mas faz isso rapidinho. Pode ficar triste, mas não muito. Pode entrar em depressão, mas dá um jeito de permanecer aqui, engajada com o mundo, produzindo. Ou, pelo menos, fingindo que tá tudo bem. Pode sentir, mas não muito. Pode se curar, mas bora garantir que a sua melhor versão esteja logo ali, dobrando a esquina!

Eu, espevitada e brava ao mesmo tempo, respondi em menos de 2 segundos com a voz mais aguda que de costume: “pois é, menina, procê vê! Que engraçado, né? Tem alguém contando? Eu não sabia! Porque eu não estou…” e sorri. E mudei de assunto.

Mentira, eu estava. Especialmente porque, a pergunta me lembrou, num instante, que eu havia desabrochado, e amadurecido, e adoecido com uma plateia me observando. Um estádio inteiro, milhares de pessoas, ali no Instagram. Vulnerabilidade pra que te quero!

Pois é. Acho que não é segredo pra ninguém que, nos últimos anos, passei por uma fase de profundo sofrimento e, ao mesmo tempo, muitas mudanças. Desde 2019, na contra-capa de um burnout e na antessala da pandemia, eu mergulhei em um túnel escuro que eu não sabia se teria fim. De verdade. Foi como se o tsunami tivesse trazido tanto lixo tóxico à tona que eu tinha duas opções: ou lidava - honestamente - com tudo que tinha aparecido no processo (no tempo das coisas) ou somente aparava as arestas, jogava pra baixo do tapete e seguia no bom e velho padrão e ritmo de sempre, fingindo normalidade.

Optei pela primeira opção. Ou ela optou por mim. Com bilhete de ida, sem marcar a passagem da volta. E fui sugada pra um universo paralelo, onde o tempo não tava nem aí pra cartilha do mundo. Entrava ano e saía ano e eu continuava lapidando meu próprio mármore, descansando minha própria cebola. E sentindo tudo. E sofrendo no processo. Mas continuei caminhando. Mesmo me enxergando travada na vida, eu seguia nadando internamente nas minhas próprias águas, pra encontrar saída. Haja terapia. Haja amigos. Haja livros e podcasts. Haja família e rede de suporte.

A real é que você olha ao redor e não acha a placa de saída. Você se agarra às paredes e, por mais esforço que faça, não consegue sair do fundo do poço. Em alguns momentos, você acha que está vendo uma luzinha no fim do túnel e depois percebe que era miragem. Nada muda na superfície. Mas, ó: tem algo acontecendo lá dentro.

Talvez você não viva aquela imagem clássica e estereotipada de alguém que passa o dia inteiro na cama (eu não vivi!), mas também não vive no corpo vibrante, de alguém com uma vida plena e potente. Eu sei, hoje em dia, muitos de nós estamos nesse lugar. Capitalismo tardio que chama, né? Pandemia também.

Nos últimos quatro ou cinco anos, eu acho que estive aí. Digo, acho, por que, só agora, consigo realmente processar e entender quanto tempo caminhei no túnel. É uma espécie de pedagogia dos contrastes. Você se acostuma a dar 100% do que tem, mas depois percebe que tava andando com o tanque vazio há muito tempo. 

Catapultada por um burnout violento (que todo mundo que me acompanha sabe que vivi) e que, na real, foram muitos burnoutinhos-acumulados-ao-longo-de-muitos-anos. Não só vivendo mergulhada no estresse crônico, mas inadvertidamente estimulando e convidando-o pra entrar. Lugar de destaque. Viciada em cortisol, andando na velocidade 1.5x, com a falsa facilidade de quem aperta pra acelerar um podcast sem muita graça. Acontece que o botão que apertei (sem nem mesmo saber como), foi o da minha própria vida. E esse era o único jeito que eu sabia vivê-la, desde que me entendo por gente. Passando rapidamente por tudo, a alma descolada e deslocada, a 2 cm do corpo. Eu corria tanto que ela não tinha tempo de me acompanhar. Passei tanto tempo anestesiada que quando resolvi sentir, meu corpo precisou de cinco anos pra atualizar o sistema.

E isso tem suas consequências. Um corpo que só sabia viver entre o medo e o acelerar, como se estivesse dirigindo em alta velocidade, mas com o freio de mão puxado a todo tempo. Desgasta. Corrói. Alguma melhora, aqui ou ali, mas num basal muito abaixo do que eu conseguia imaginar. Ou muito abaixo da vida criativa e potente que eu desejava viver. 

Pois eu cheguei a duvidar que reencontraria minha energia criativa, minha potência, minha vitalidade. Ou que aprenderia outro jeito de viver. Que eu tinha mesmo virado outra pessoa. Que aquele brilho eu jamais recuperaria. Perdi a esperança no futuro. Parei de imaginar cenários. Parei, até mesmo, de sonhar, um combustível que sempre fez parte da minha vida, apesar de. E cheguei a acreditar que seria assim até o fim, fazendo concessões realistas comigo mesma: “tá tudo bem, não é que você seja infeliz, Rafaela… você só não é plenamente feliz.” 

Hoje, posso dizer, com propriedade, que saí do túnel. Não só vejo a luz brilhante, mas me permito sentir também a quentura do sol na pele. A alma de volta ao corpo. Meu corpo sentindo e vivenciando o mundo. Inclusive, os altos e baixos. Me lembrando que as coisas têm ritmo próprio. Porque não é que a vida tem sido perfeita. É só que eu a tenho vivido. Inteiramente. Passei tanto tempo dissociada, anestesiada, sem sentir, que agora, vez ou outra, viver parece milagre.

Então, eu queria dizer pra você, caso esteja em lugar semelhante: eu não sei quanto tempo seu túnel vai durar. Mas eu sei, de verdade, que nem tudo na vida é túnel. Continue nadando, continue se estudando, apenas continue. Peça ajuda. Se movimente (metafórica e verdadeiramente), nem que seja um pouquinho. Um passinho depois do outro. Vai ser preciso forca e coragem. Deixe seu corpo criativo te guiar nesse processo. Nenhuma tempestade dura uma vida inteira e também não é preciso seguir o manual que alguém escreveu pra gente. O tempo das coisas é o tempo que a vida leva pra viver e sentir as coisas.

Beijos esperançosos e com amor,

Rafaela Cappai

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